5. Melhorar a sociedade: acredite!

Deixe-me ser bem claro: falar sobre bibliotecas melhorando a sociedade não significa que o bibliotecário sairá às ruas cheio de cartazes explicando como se manuseia um livro ou que uma obra clássica é melhor leitura que um best-seller. Longe disso! Mas é bom começar este capítulo desta maneira, pois creiam, meus amigos, ainda há bibliotecários que pensam assim.

Esta suspeita não é injustificada. Por grande período da História, as bibliotecas foram (e continuam sendo) vistas como instituições elitistas, promovendo uma literatura “correta”. Esta literatura era aprovada por brancos, homens e proprietários de terra.

Este elitismo continua a aparecer de algumas maneiras inesperadas. Há muitos discursos de que as bibliotecas são locais de autoridade que coletam apenas recursos de alta qualidade, sendo que esta “alta qualidade” normalmente vem sendo definida pela reputação de um editor que vende alguma coisa para a biblioteca. Esta é a percepção de alguns professores, pais e empresários. Quer informação de qualidade, vá à biblioteca. A biblioteca é (ou deveria ser) um local para encontrar recursos de informação de qualidade, mas para cumprir a sua missão ela não pode somente fazer isso. Há dois problemas em apenas constituir um acervo de bons recursos: universalidade e “inverdade”.

Já falei um pouco sobre universalidade. Será que tudo que é universal tem uma excelente qualidade? Quando o Presidente dos Estados Unidos afirma alguma coisa automaticamente isto se torna informação de alta qualidade? Pergunte a alguém de outro partido ou ao Presidente do Irã e saberá da resposta. Deveríamos na verdade pensar em processos ou procedimentos de qualidade que são universalmente reconhecidos. Na ciência, ao invés de falar sobre verdade ou qualidade, falamos sobre revisão por pares, o que é uma excelente abordagem e que a defendo. Qualidade é semelhante a pornografia… você só sabe que tem quando você a vê.

Há um segundo problema em assumir a biblioteca como um centro de alta informação: há poucos lugares no planeta com uma grande concentração de mentiras e inverdades do que uma boa biblioteca universitária. Por quê? Porque é necessário ter informação ruim para produzir um bom conhecimento. Sei que isso mais parece um oximoro, mas continuemos a refletir. Se você estudar evolucionismo, é bem provável que terá de ler sobre criacionismo somente para refutá-lo. Se você quiser avançar cientificamente, é bem provável que tenha de refutar teorias anteriormente realizadas. A História coleciona diversos racistas e biografias distorcidas. Textos de Educação falam sobre como lidar com o “retardado” e nos de Psicologia ainda podemos encontrar textos sobre “mulheres histéricas”. Todas estas informações são extremamente importantes para o progresso do conhecimento universal, mesmo que com este tom mais negativo.

Alguns anos atrás, a Fundação MacArthur financiou uma pesquisa sobre credibilidade e juventude. Alguns autores (inclusive eu) chegaram à mesma conclusão: as escolas públicas do sistema K-12 são potencialmente os piores lugares para ensinar as crianças a encontrar informações com credibilidade na Internet. Por quê? Os professores e bibliotecários escolares mostram às crianças boas informações, mas quando se trata de exemplos negativos, elas acabam encontrando-as sozinhas, em seus quartos, em casa, totalmente sem supervisão ao navegar na Internet.

Não falo aqui de pornografia, mas de sites como MartinLutherKing.org. Não há nenhum erro de digitação. O site realmente existe e é construído e administrado por Stormfront, um grupo de supremacia branca. Obviamente que você não é obrigado a saber disso, mas basta usar a barra de rolagem no site para checar esta informação. Nas escolas provavelmente os professores indicariam isso, mas e em casa? Os professores e bibliotecários não podem ir abrindo site por site para mostrar aos alunos como grupos racistas podem usar a Internet para manipular os jovens que desconhecem como avaliar uma fonte de informação.

Vou confundir a sua mente agora um pouco: o site de Stormfront é um site de alta qualidade. Estou me contradizendo? Não! Se um repórter estiver à procura de um bom exemplo de como a informação pode ser manipulada na internet de maneira racista, então este site é excelente! Portanto, sempre que formos falar de qualidade, é necessário considerarmos o contexto.

Em última análise, o que constitui a melhoria da sociedade é o local em que a biblioteca está. Todas as suas tradicionais atividades devem estar alinhadas com os objetivos da comunidade.

Esperando mais que tortas e prostitutas

Em Ann Arbor, no Michigan, os bibliotecários têm um espaço de sugestões em seus sites. Eles pediram ajuda de seus interagentes para construir uma biblioteca melhor. Um dos meus comentários favoritos é (estou parafraseando aqui): “quero mais tortas e prostitutas”. Bem provável que fosse uma brincadeira, mas este tipo de resposta levanta um contraponto importante: vai contra todo um intuito de uma melhoria que só um bibliotecário autoritário vislumbra.

Durante todo este livro, venho falando sobre acreditar mais em nossas bibliotecas, mas por um momento acho necessário falar sobre como nossos bibliotecários precisam acreditar mais em si mesmos, ver que cada membro de sua comunidade está esperando o que você pode fazer por ele. É preciso encará-lo como um parceiro, como um membro, e não como usuário, cliente ou outros termos sinônimos.

Esta é uma ideia que eu devo a Joan Frye Williams, bibliotecário e consultor de tecnologia da informação para bibliotecas. Ao trabalhar com várias bibliotecas públicas com o intuito de desenvolver planos estratégicos, veio a questão de qual termo usar para as pessoas que utilizam as bibliotecas. Em uma pesquisa informal com estas pessoas, a palavra que mais se repetiu foi “membro”, visto que “eu tenho um cartão da biblioteca e pago meus impostos e taxas”. Eu gosto deste termo, pois ele traz uma conotação de co-propriedade, um membro não utiliza somente o que a instituição oferece, ele participa, ele cria, ele tem sua opinião ouvida. Em essência, eles fazem parte da organização. Você precisa acreditar que faz parte da biblioteca, precisa estar envolvido nas discussões que tratam da melhoria da sociedade e como a biblioteca pode colaborar com isso.

Entretanto, é importante ir além das conversas, pois você pode compreender sozinho o que sua comunidade está precisando. Bibliotecários são ótimos em solucionar problemas, eles simplesmente os amam, adoram o desafio que uma boa pergunta no serviço de referência pode trazer, gostam de pesquisar e ir atrás da informação certa. A profissão nasceu para servir justamente por conta nas necessidades de uma comunidade. Estas necessidades são grandes e por isso que o trabalho é importante.

Não devemos esquecer que nossas comunidades têm suas próprias aspirações e sonhos. Embora a diversidade limite um pouco para que se chegue uma visão em comum, nós sabemos que isso é possível. A biblioteca pode e deve trazer vizinhos, alunos, pais, professores e todos os cidadãos para um espaço público, para que juntos possam sonhar.

Um grande sonho tem o poder de mover nações. Um grande sonho transcende diferenças, problemas e desafios. Ele nos tira da rotina e do peso do cotidiano. Um sonho tem a habilidade de nos motivar para melhorar a sociedade. É para eles que devemos desenhar nossos produtos e serviços nas bibliotecas.

Da comunidade

Você deve esperar que uma biblioteca faça mais do que ter um sonho e o torne realidade. Grandes bibliotecas ajudam a moldar uma visão de mundo. Note que eu uso muito a palavra “conversa” ao longo do livro. Faço de uma maneira intencional, para mostrar como as comunidades procuram melhorar a si mesmas e à sociedade de maneira geral.

Conversar pode parecer simples, mas nem tanto. Envolve no mínimo duas partes com o uso de uma linguagem e o mais importante: ouvir e falar. Uma conversa é uma troca de ideias onde ambas as partes acabam sendo moldadas pelo assunto e moldando inclusive outros assuntos. Mas sem estarem dispostas para ouvir uma à outra, as conversas acabam rapidamente se tornando monólogos e se esvaem.

Quando falamos sobre como melhorar nossas comunidades e qual o papel da biblioteca nesta missão, devemos crer que nossas bibliotecas se moldem para as necessidades e vice-versa. E isso não é uma ação revolucionária, muito pelo contrário. Durante décadas passamos a ouvir sobre abordagens voltadas a clientes. Na tecnologia, por exemplo, falamos sobre experiência do usuário (UX user experience). Mas devemos ir além, não devemos pensar em consumidores ou usuários de biblioteca, devemos pensar como membros, que moldam a biblioteca.

Isto significa que também podemos acreditar que as bibliotecas possam moldar os diálogos para um amanhã melhor, desde que passem a atuar como sendo “da comunidade” e não “para a comunidade”. Os serviços devem ser planejados para que atendam às necessidades da comunidade, que não sejam genéricos. É importante que as coleções da biblioteca sejam também sobre o conhecimento dos indivíduos locais, pois desta forma poderão servir como alavancas para a visão de um futuro melhor, além de ajudar a montar uma estratégia de como alcançar essa visão.

Veja este exemplo simples: e-books. Algo muito interessante está acontecendo na migração do livro do papel para os bits. A maioria das pessoas ao buscar um leitor de livro eletrônico, se concentra em um conjunto de algumas funcionalidades (iluminação, compartilhar alguns trechos, sincronizar com vários dispositivos) e até mesmo no próprio aparelho (se é um tablet, um eInk). Estes elementos são mudanças bastante grandes em relação ao nosso tradicional relacionamento com livros, mas há ainda um outro que acabamos por esquecer em algum momento: a relação dos editores e a venda destes livros digitais.

Sei que a leitura de contratos de modalidades de empréstimos de livros eletrônicos não é muito agradável e alguns até apresentam alguns termos e práticas que estamos todos (bibliotecários, alunos, professores, editores) aprendendo. Mesmo que você ache que esteja comprando um livro para o seu dispositivo, não é bem exatamente isso que acontece. Na verdade, você está pagando por uma licença de uso deste livro. E qual seria a diferença? Quanto você compra algo, você tem o direito sobre aquele produto. Se você compra um livro físico, você pode emprestá-lo a um amigo ou até mesmo vendê-lo depois. São práticas totalmente legais. Entretanto, o mesmo não acontece com o livro eletrônico. Por quê? Porque você não é proprietário de um “objeto”.

Quando você adquiriu um novo leitor eletrônico, bem provável que você tenha clicado em um campo “Aceito os termos de uso”, algo que aparece sempre que criamos uma nova conta em ambiente digital. Se você for como a maioria dos usuários, provavelmente você nunca leu estes termos. Observe que este tipo de ação não acontece quando estamos em uma loja física. Já para o livro eletrônico, este acordo acaba por se caracterizar como uma licença de uso, que vai dizer o que você pode e o que não pode fazer com a cópia digital que você acabou de adquirir.

Em julho de 2009, dois anos após o lançamento do primeiro Kindle da Amazon, muitas pessoas compraram uma cópia de 1984, de George Orwell. Entretanto, a Amazon não tinha o direito para vendê-lo e por isso teve que apagar de todos os Kindles as cópias que foram compradas e reembolsar os seus clientes.

A Amazon estava no direito de apagar estas cópias? Com certeza, pois os proprietários desses dispositivos, ao comprá-los, concordaram com as políticas da Amazon: eles pagaram pelo uso do livro nas condições que a empresa tinha criado.

O que isso tem a ver sobre a missão das bibliotecas em melhorar a sociedade? Há uma crescente demanda por livros eletrônicos por parte dos membros da biblioteca e os editores estão ficando cada vez mais preocupados sobre como assumirão a liderança nas vendas. Agora, imagine se você pudesse ir com seu dispositivo de leitura até à biblioteca e pudesse baixar livros gratuitamente. Você nunca mais iria comprar outro livro? Ao invés dos editores venderem cópias e mais cópias de livros, eles seriam somente vendidos às bibliotecas e isso seria um “problema” para eles. A maioria dos editores não está concordando em licenciar todos os e-books para as bibliotecas.

O que alguns editores estão concordando em trabalhar é restringir o número de vezes que a biblioteca pode “emprestar” um livro digital, por exemplo, se um título da Harper Collins foi emprestado 25 vezes, a biblioteca precisará licenciar uma nova cópia. A Random House teve uma abordagem mais simples e direta: aumentou em 300% o preço das licenças para bibliotecas. No mundo físico, quando chega um novo livro no mercado, o bibliotecário simplesmente vai até a livraria, compra, cataloga e o coloca na estante, pronto para emprestá-lo. Já no mundo digital, um livro de 40 reais sai para a biblioteca com o valor de 60 reais. E é bom lembrar que são estes os editores a negociar com as bibliotecas. Por conta disso, muitos bibliotecários começaram a questionar o quão válido e interessante é este mercado para sua comunidade. Algum deles, inclusive, chegaram a boicotar os livros eletrônicos.

Por que trago esta história tão longa a respeito dos livros eletrônicos? Porque não há dúvidas que nossas comunidades querem esta informação, neste suporte, em suas bibliotecas. Entretanto, se a sua biblioteca faz o melhor que pode para atender essa demanda, duas coisas podem acontecer. A primeira é que a comunidade poderá não ficar tão satisfeita com a seleção dos livros que você fez. Muitos livros poderão não estar disponíveis na biblioteca porque os editores não vão licenciá-los. A segunda coisa que pode acontecer é que a biblioteca tenha um alto custo com licenciamento e tenha de diminuir os recursos financeiros de outros serviços que já existiam.

Já tenho uma opinião formada sobre determinado assunto e não julgo que as companhias e indústrias tenham que garantir as suas vendas. Um grande número de instituições, incluindo bibliotecas, editoras, agências de viagens, consultórios médicos, produtoras de filmes e fabricantes de jogos estão num grande desafio de se posicionarem perante os novos modelos de negócios. Os bibliotecários precisam estar cientes e preparados para isso.

Tal como acontece com o serviço Freegal, que eu mencionei no capítulo 2, nossa comunidade gostaria que os livros eletrônicos sumissem de repente? Como a comunidade poderia se manifestar perante isso? Se você não está satisfeito com a ideia de que Amazon, Apple ou Barnes & Noble possam, a qualquer hora, apagar algo que você pagou, não seria interessante que a biblioteca promovesse algum serviço que explicasse melhor como funcionam os livros eletrônicos, ajudando a diminuir dúvidas e inclusive a promover a leitura?

O mesmo argumento agora está em voga no ambiente das bibliotecas universitárias sobre a publicação acadêmica. No Capítulo 2 falei sobre os altos custos de licenciamento envolvendo as bases de dados (licenciamento, não compra!). Muitas universidades estão se incomodando com o fato de que o governo financia os estudos de um pesquisador e este, para poder publicar os resultados de sua pesquisa, precisa pagar a uma editora o artigo para que este seja publicado. O acesso, posteriormente, novamente precisará ser pago por bibliotecas para que outras pessoas possam ler e desenvolver outras pesquisas.

Isso tem levado um número cada vez mais crescente de pesquisadores e bibliotecários a buscar modelos alternativos de publicação, como o acesso aberto, onde os artigos ficam livremente na web. Qualquer associação ou universidade pode criar a sua própria revista, administrá-la e garantir o acesso.

O que a comunidade de sua biblioteca deveria saber a respeito de acesso aberto? Algumas grandes universidades, como Harvard e a da Carolina do Norte, trouxeram algumas políticas de que todas as publicações devem ser em acesso aberto (com algumas raras exceções). É papel da biblioteca apresentar à sua comunidade debates e ideias sobre acesso aberto, abordando quais os riscos e benefícios. Não basta somente que a biblioteca crie uma política e a aplique, é necessário ter diálogo entre todos os interessados e envolvidos.

Jardins murados

Os livros eletrônicos também levantam a questão do papel do bibliotecário como educador e indivíduo que pode organizar uma comunidade: os chamados jardins murados. O termo remete aos sistemas que são proprietários da entrega de conteúdo, como por exemplo a App Store, da Apple. É somente através dela que você consegue adicionar um aplicativo ao seu iPad ou iPhone, portanto, a Apple tem quase que o controle total do conteúdo (aplicativos) que você pode acessar nestes dispositivos.

Este conceito de jardim murado tem se estendido também para o conteúdo propriamente dito, como é o caso da compra de livros para o seu Kindle via a loja da Amazon. Nas livrarias físicas obviamente isso não acontece, você é livre para visitar diferentes livrarias até encontrar o que quer e como quer adquirir. Por mais que o serviço prestado pela Amazon seja bastante funcional e completo, você ainda está num jardim murado, as paredes estão lá, firmes e fortes.

Mesmo eu tendo passado boa parte deste capítulo falando de livros físicos e digitais, ressalto: precisamos esperar mais de nossas bibliotecas do que apenas livros. Mas será que este conceito de jardins murados também se aplicaria na missão das bibliotecas em melhorar suas comunidades? Óbvio!!

Há uma porcentagem maior do que 50% de que se você usa a Internet, bem provável que esteja em uma mídia social e que esta mídia seja o Facebook. O Facebook também é um jardim murado, mas num sentido inverso. Você já se perguntou por que você não paga para ter seu perfil no Facebook? Porque lá dentro o produto é você. Ao contrário da Apple ou Amazon, que controlam aquilo que você pode consumir do jardim, com o Facebook isso não existe.

Tudo o que você lê e escreve, as fotos que você publica, curte e comenta, tudo é propriedade do Facebook e informação valiosa que é vendida para anunciantes (lembra-se do monitoramento feito pelo governo para prever possíveis manifestantes pelas mídias sociais?). Agora, para a maioria de nós, incluindo eu mesmo, deixar o Facebook seria um investimento para a nossa privacidade, entretanto, o grande problema é que muitas pessoas não sabem o que acontece nas entrelinhas e chega até a ficar irritado com qualquer mudança que o Facebook venha a fazer no site. É bom lembrar que ainda que elas deixem esta mídia social, ela continua a manter seus dados pessoais.

Grandes Desafios

Agora voltemos a falar sobre o que devemos esperar dos bibliotecários para melhorar a sociedade. Há alguns aspectos que compõem os sonhos de uma comunidade: econômico, espiritual, recreativo, acadêmico e assim por diante. Quais aspectos devem ser levados com mais consideração pelas bibliotecas? Ao invés de falarmos em aspectos, penso que seja melhor adotarmos Grandes Desafios.

Um Grande Desafio pode ser interpretado como um problema, que precisa de uma solução que é fundamental, com grandes implicações e uma grande variedade de abordagens. Pode-se dizer que seja uma meta definida por uma comunidade que visa trazer resultados, estratégias, soluções e avanços. Um Grande Desafio também serve como um convite para universidades, governos, indústrias ou quaisquer outras instituições, de diferentes áreas, que juntas podem solucionar este desafio. Um excelente exemplo pode ser visto na Biologia com o mapeamento do genoma humano.

Com início em 1990, cientistas de diversas partes do mundo se reuniram com o objetivo de mapear o código genético humano, algo em torno de 20 mil a 25 mil genes. Os parceiros de universidades, do governo e de indústrias privadas acreditavam que com isso poderiam descobrir tratamentos para algumas doenças, compreender melhor a evolução humana e ainda expandir os recursos para medicamentos, médicos e pesquisadores. Durante 13 anos, novas tecnologias foram desenvolvidas para ajudar a compreender estes genes humanos. A partir daí, Biologia, Medicina, Farmacologia, Criminologia e outras áreas deixaram de ser as mesmas.

Há desafios semelhantes ao do DNA que possam ser ambientados nas bibliotecas? Quais são os Grandes Desafios da Biblioteconomia e como eles podem ajudar a melhorar nossas comunidades? Para tentar responder a esta pergunta, um grupo de bibliotecários de Dallas, no Texas, se reuniu em abril de 2011 para debater uma série de temas que envolviam a infraestrutura do conhecimento.

A infraestrutura do conhecimento é uma mistura rica de pessoas, tecnologias, fontes e ações. Como o DNA, ela é essencial para o nosso cotidiano e também como o DNA, você não chegou a pensar o quão importante ela é. Há algumas partes óbvias desta infraestrutura, como o seu celular. Muito mais que 50% dos adultos nos Estados Unidos possuem um, que serve para navegar na web e atualizar redes sociais como Facebook e Twitter. Há também outras partes desta infraestrutura, como as redes digitais que fornecem texto, filme ou música.

Algumas destas partes estão cada vez mais sendo conscientizadas sobre leis que acabam por afetar a infraestrutura como um tudo. Atualmente, quando ouvimos falar de piratas, podemos ser tanto remetidos para os da Somália como para os adolescentes baixando o último filme do Capitão América via BitTorrent. Há um grande debate em torno disso, sobre quem é o dono deste conteúdo e o que deve ser feito quando pirateado. Isso influencia a nossa infraestrutura de conhecimento.

Alguns veem como infraestrutura do conhecimento o conteúdo online da educação a distância. Outros veem a própria Internet. Outros ainda pensam nos repositórios, nas bibliotecas e nos museus.

No entanto, pelo menos nos Estados Unidos, esta infraestrutura extrapola os “espaços normais” e pode chegar no carro que você dirige até o trabalho e que muito provavelmente terá um computador de bordo que monitora sinais sem fio para destravamento automático, regular o combustível ou até desligar o carro em caso de roubo, impedindo-o de se locomover.

Além deste carro inteligente, se você estiver numa grande cidade, é bem provável que as estradas também sejam inteligentes. Sensores no asfalto podem calcular quantos carros circulam diariamente, identificando os horários de maior fluxo, controlando semáforos e evitando congestionamentos.

Estima-se que em poucos anos cada milha de estrada irá gerar um 1 gigabite de dados por dia. Como há quase 4 milhões de milhas nos Estados Unidos, seriam gerados 28 exabites por ano. Um exabite equivale a 10x10x10x10 megabites. Se 5 exabites podem armazenar todas as palavras que jamais foram ditas por seres humanos, então 28 exabytes nem nossos mais singelos sonhos poderiam calcular.

Saber que todos estes dados são coletados diariamente, é um tanto apavorante, pois não conseguimos ter uma noção tão clara destes números. Charles Duhigg é um repórter investigativo no New York Times e escreveu o livro “O poder do hábito: por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios” (já com tradução no Brasil). Ele nos conta como todos estes dados podem ser colocados para algum uso inesperado, inclusive para prever alguma tendência ou a mera gravidez de uma mulher para a varejista Target, por exemplo.

A gravidez é uma grande transformação na vida de qualquer mulher e a Target quer se aproveitar disso para que ela compre determinados produtos de suas lojas. A Target usa os dados que tem sobre seus clientes (Quais promoções temos que enviar? Estas promoções têm se revertido em compras?) para entregar promoções mais pontuais ainda conforme a necessidade dela. Em recente entrevista, Duhigg explicou com mais detalhes sobre como funciona este trabalho da Target:

 

Um dos analistas da empresa descobriu que de repente várias mulheres começaram a comprar loção sem aroma para grávidas. A partir disso, eles foram analisando o que mais estas mulheres começavam a comprar, prevendo o sexo do bebê e já começando a montar um registro da vida desta criança.

Se uma cliente começa a comprar loção sem aroma, depois parte para vitaminas como zinco ou magnésio, então isso significa que ela provavelmente esteja grávida. Ao passar do tempo a mesma cliente começa a ir comprando outros produtos afins deste período. Todos estes dados acabam por ser utilizados para informação estratégica em vendas.

Com 25 produtos, num período de duas semanas, o analista consegue descobrir há quanto tempo a cliente está grávida. Assim, mesmo que esta cliente nunca tenha preenchido algum formulário ou manifestado que estivesse grávida (às vezes nem seus próprios pais sabem), a Target, conforme seus padrões de compras, pode não somente saber que a cliente esteja grávida, mas também uma data provável de quando o bebê irá nascer e assim lhe enviar por e-mail promoções específicas de produtos para recém-nascidos.

 

Se a Target consegue ser tão precisa, o que você bibliotecário pode fazer com tanta informação?

Agora, aqui está o impasse sobre nossa atual infraestrutura de conhecimento: ela está quebrada. Pode não parecer, já que nossos dispositivos continuam funcionando, os semáforos continuam controlando o trânsito e a Target continua a ganhar dinheiro.

Para começar, esta atual infraestrutura é um tanto descoordenada e muitas vezes conflituosa. Há poucas políticas que façam com que o conjunto dos investimentos públicos e privados sejam melhorados. Além disso, esta infraestrutura ainda se limita a uma visão muito simplista focada em consumo e produção. Face a isso, existem organizações que produzem conteúdo (livros, filmes, músicas, etc) e os consumidores que o compram. O problema é que este modelo não faz mais sentido, já que agora todos nós somos produtores e consumidores ao mesmo tempo.

Veja o YouTube, onde você pode assistir a virais de gatos ou mesmo submeter o seu próprio vídeo. Agora, observe a conexão de Internet que você utiliza para poder acessar o YouTube. Há a grande probabilidade de você visualizar uma linha assimétrica, que significa que você pode fazer download de conteúdo muito mais rápido do que carregar. Em 10 segundos você faz um download, mas para subir você leva 10 minutos. Por quê? Porque as conexões no mercado pressupõem que você irá consumir muito mais conteúdo do que produzi-lo.

Isto não acontece somente no âmbito tecnológico, mas em todos os aspectos da infraestrutura do conhecimento. Vá à biblioteca, pegue um livro. Simples, certo? Agora vá à biblioteca e tente colocar nas estantes um livro que você escreveu. Vá ao colégio e tenha uma aula. Agora tente dar uma aula. Consegue perceber algumas barreiras?

Onde é mais fácil colocar informações do que somente consumi-las? Onde o conhecimento pode ser facilmente monetizado, como no Facebook, onde você não paga nenhuma taxa para utilizar, mas quem acaba sendo o produto é você.

A razão pela qual precisamos de uma infraestrutura muito mais participativa não é por conta de uma visão utópica de igualdade. Pense, na verdade, mais como um investimento e oportunidade para empreendedorismo e inovação.

Na área rural de New Negland, havia um homem que amava motos de neve. Durante toda a sua vida ele colecionou estas motos e várias peças deste transporte. Amava-os tanto que ao se aposentar o seu celeiro estava repleto de motos e peças. Certo dia, seu neto, de férias da faculdade, chegou com uma câmera e um computador no celeiro. Em uma semana, ele conseguiu inventariar toda a coleção, colocando-a disponível na internet. Rapidamente ele conseguiu transformar o celeiro em um centro de distribuição de peças raras para o mundo todo.

Sem uma abordagem de participação em nossas infraestruturas de conhecimento, estes atos inesperados de empreendedorismo tornam-se mais difíceis. Se aplica também aos “jardins murados” que comentei anteriormente. Sem esta liberdade, sem esta participação, nossas infraestruturas continuarão a ser falhas.

Minha biblioteca consegue atender grandes desafios?

As bibliotecas têm um papel fundamental, historicamente, nesta infraestrutura do conhecimento. Nos Estados Unidos, 99,3% das bibliotecas públicas oferecem acesso gratuito à Internet e 64,5% delas relatam que são os únicos espaços com internet livre dentro de suas comunidades. Além disso, os governos municipais, estaduais e federais estão se atribuindo da Internet como um espaço para fazer negócios e as bibliotecas estão sendo chamadas para fornecer acesso e apoio ao público. Onde antes havia um setor dentro do governo responsável por este apoio, agora a biblioteca assumiu esta função.

As bibliotecas também desenvolvem outros papeis fundamentais nesta infraestrutura do conhecimento. O Escritório de Direitos Autorais dos Estados Unidos, dentro da Biblioteca do Congresso, além de registrar as obras intelectuais, também institui políticas que garantam o uso justo e as penalidades para a violação da lei de direitos autorais.

 

Do site do Escritório:

“O Escritório de Direitos Autorais fornece assistência especializada ao Congresso sobre questões a respeito de propriedade intelectual; aconselha o Congresso sobre as mudanças na lei de direitos autorais; analisa e auxilia na elaboração da legislação de direitos autorais e relatórios legislativos; fornece e realiza estudos para o Congresso; e oferece conselhos ao Congresso sobre o cumprimento dos acordos multilaterais, como a Convenção de Berna para a Proteção das Obras Literárias e Artísticas. O escritório trabalha em conjunto com o Departamento do Estado, com o Representante da Produção Intelectual dos EUA e com o Departamento Intelectual do Poder Executivo no fornecimento de conhecimentos técnicos para negociações internacionais de propriedade intelectual, além de fornecer assistência técnica a outros países de elaboração de suas próprias leis de direitos autorais”

Quando o Google ampliou a sua missão em tornar disponível todo o conhecimento da humanidade, ele se aproximou do objetivo das bibliotecas. As bibliotecas acadêmicas armazenam grande parte deste conhecimento, sem contar no seu papel em colaborar com a construção do conhecimento pela comunidade que atende. Podemos até resgatar as questões discutidas no Capítulo 2 quando pensamos melhor a respeito desta infraestrutura do conhecimento.

Sim, esta ideia de infraestrutura é algo grandioso. Mas aí você pode se perguntar: será que o bibliotecário mais próximo a mim consegue desempenhar este papel? Sim! Bibliotecários escolares podem ser agentes fundamentais no desenvolvimento de novas formas de ensino, de aprendizagem, dando a possibilidade de um acesso informacional que extrapole o dos livros. As escolas atualmente estão se vendo obrigadas a reformular suas estratégias de ensino para algo muito mais contemporâneo. Que melhor espaço que uma biblioteca para colocar em prática todas estas estratégias?

Bibliotecários universitários podem trabalhar e defender o acesso aberto à produção científica. Bibliotecários de órgãos governamentais podem colaborar em encontrar informações estratégicas dentro dos espaços públicos, fomentando a democracia. Já os bibliotecários de empresas podem assegurar a gestão adequada de toda produção intelectual de seus colaboradores.

O futuro de nossa economia, de nossa democracia, de nossa educação e de nosso cotidiano está cada vez mais próximo desta infraestrutura de conhecimento. Precisamos acreditar em nossas bibliotecas como colaboradoras para esta proximidade. Se sua biblioteca não crê em seu potencial transformador – acredite mais! Se sua biblioteca tem visões limitadas que se esbarram em problemas que foram somente concebidos mentalmente, sequer existem – acredite mais! Sua comunidade é grande demais para que a biblioteca possa atender indivíduo por indivíduo, mas ela é tão importante que merece todos os esforços. Acredite mais, muito mais!

 

One Reply to “5. Melhorar a sociedade: acredite!”

Help me learn through conversation...