2. O argumento para melhores bibliotecas: aumentar o impacto

A Cushing Academy é uma escola prepatatória particular a 70 milhas a oeste de Boston. Em seu exuberante campus arborizado, 445 estudantes de 28 estados e 28 países trabalham durante o ensino médio.

Em 2009, a Cushing investiu centenas de milhares de dólares para reformar suas bibliotecas. A maior parte deste investimento foi para a compra de recursos digitais e leitores de livros digitais, em troca dos livros físicos. Ao menos foi isso que o Boston Globe noticiou. Só que a verdade é mais complexa. A Cushing, de fato, se desfez de grande parte de seus livros físicos, a maioria livros científicos desatualizados, para expandir os recursos digitais para seus alunos. Aumentou também a equipe de funcionários da biblioteca, permitindo que os estudantes tivessem acesso aos recursos da biblioteca 24 horas por dia em todos os dias da semana.

A parte interessante desta história não é que a escola eliminou a sua coleção impressa (isso não foi feito), ou mesmo na transformação da biblioteca tradicional para uma digital. Não, o interessante mesmo foi a reação da imprensa diante deste fato. As manchetes diziam: “Biblioteca escolar digital deixa pilhas de livros para trás”, e “Bem-vindo à biblioteca. Diga adeus aos livros”, os repórteres pareciam jogar fora o passado da escola e até vislumbravam o fim das bibliotecas.

O argumento central deste livro é de que necessitamos de melhores bibliotecas. Isso pressupõe que, primeiro, nós precisamos de bibliotecas. Muitas pessoas questionam a necessidade de se ter uma. Antes de sabermos o que você deve idealizar de uma biblioteca, vamos ver alguns argumentos para a sua existência.

A História nos apresenta as principais razões em se criar uma biblioteca e que aqui represento com algumas palavras-chave:

  • Poder de compra coletiva;
  • Estímulo econômico;
  • Centro de ensino;
  • Rede de segurança;
  • Patrimônio cultural;
  • Berço da democracia;
  • Símbolo das vontades da comunidade.

Há algumas fronteiras difusas nestas razões, mas vale a pena analisá-las melhor e pensar a respeito de um novo potencial para a biblioteca. Vejamos cada uma por vez.

Poder de compra coletiva

Stewart Brand tem uma fala bastante famosa: “a informação quer ser livre”. Ao menos, é o que todo mundo diz a respeito. A frase completa é:

Por um lado a informação quer ser cara, porque é valiosa. A informação certa no lugar certo pode mudar sua vida. Por outro lado, a informação também quer ser livre, porque o seu custo está ficando cada vez menor. Então você tem estes dois embates, um contra o outro.”

Os resultados destes embates estão em todo lugar. Os custos de produção de livros e de música diminuíram por causa das redes digitais. Os pesquisadores estão cada vez mais publicando seus trabalhos na Internet e sites como o YouTube mostram que há uma comunidade disposta a compartilhar informação de todos os tipos de forma gratuita. Entretanto, se você observar mais atentamente, verá que o “livre” não é tão barato assim. Os vídeos do YouTube podem ser assistidos gratuitamente – desde que você assista a algumas propagandas primeiro. Os modelos de negócios estão mudando, mas a qualidade da informação ou a informação personalizada ainda custam muito dinheiro.

As bibliotecas sempre encontram uma forma de tornar os escassos recursos públicos em grandes investimentos. Nas universidades, estes investimentos, por exemplo, vão para assinaturas de periódicos científicos. Nas bibliotecas públicas, reunir recursos significa compartilhar o hábito pela leitura. Em escritórios de advocacia, inclui o LexisNexis e bases de dados como Westlaw. O ponto que precisa ser discutido é, que se um recurso é muito caro para uma pessoa somente, mas que poderá servir a toda uma comunidade, então algumas cobranças (impostos, taxas de matrícula e orçamentos departamentais) fazem sentido. Quando uma biblioteca se depara com a necessidade de comprar algo que seja muito caro, é necessário que se trabalhe em consórcio.

Para você ter uma pequena noção de quanto dinheiro estamos falando, deixe-me apresentar dois rápidos exemplos. O primeiro é a tabela abaixo mostrando o quanto a Universidade de Yowa investe em periódicos científicos eletrônicos para a sua comunidade acadêmica:

Editora Investimento Número de títulos
Elsevier $ 1,641,530 2095
Wiley/Blackwell $ 868,031 1304
Springer $ 607,540 400
Sage $ 243,647 608
JSTOR $ 97,602 2319
Cambridge UP $ 43,940 145
Project Muse $ 33,210 500
Oxford UP $ 21,313 250

É isso mesmo que você leu! São gastos mais de 3,5 milhões de dólares por ano em 7621 periódicos. Por ano! E a biblioteca não é detentora dos artigos. Voltaremos a falar sobre isso no Capítulo 5.

Claro, você pode considerar também que seja barato em comparação ao seguinte serviço do Texas. O estado mantém um serviço chamado TexShare através de sua Biblioteca Estadual e a Comissão de Arquivo. O TexShare fornece grandes bases de dados de informações científicas para seus cidadãos por meio de bibliotecas conveniadas.

Aqui está o quanto Texas investe: teria custado às 677 bibliotecas que participam do programa TexShare o valor de 97.044.031 dólares para disponibilizar as bases com os artigos, mas que com o convênio saiu por 7.042.558 dólares.

Noventa milhões foram poupados – este é o poder da compra coletiva!

Há dois fatores que muitas vezes são esquecidos quando se fala de bibliotecas comprando coletivamente: que decidir o que comprar necessita organização e que os recursos devem vir para um bem comum, coletivo.

Para o aniversário de 5 anos do meu filho, minha esposa e eu compramos 10 quilos de Lego pelo eBay. Quando as crianças crescem e saem de casa, elas deixam gavetas e mais gavetas cheias de peças de Lego e alguns pais encaixotam, pesam todas e as vendem. O Lego é ótimo para o desenvolvimento da imaginação de crianças até os seus 5 anos. Lego é para a imaginação, mas é também sobre como trabalhar com instruções e juntar peças sobre determinado tema (espaço, Star Wars, etc.). Comprar quilos de Lego não serve para este propósito, pois são peças diferentes. E a situação é a mesma para os livros ou bases de dados de uma biblioteca. Você precisa investir de modo que as pessoas possam trabalhar com estes itens (falaremos mais a respeito disso no Capítulo 7, sobre os bibliotecários).

O segundo conceito que se perde quando se discute bibliotecas como parceiras no investimento, é a noção do bem comum. Isto é, se uma comunidade (uma escola, uma cidade, uma universidade) investe o seu dinheiro em compras de materiais, estes precisam beneficiar esta comunidade como um todo. Pode parecer um pouco óbvio, mas bibliotecas e comunidades não podem perder este ponto de vista. Deixe-me apresentá-lo a um serviço relativamente novo chamado Freegal.

As bibliotecas assinam o Freegal para permitir que seus interagentes possam baixar músicas do acervo da Sony em arquivos MP3. As bibliotecas compram pacotes de downloads (por exemplo, 500 downloads para a sua comunidade). Pode parecer um ótimo serviço, entretanto a biblioteca (que na verdade é a comunidade, lembre-se sempre disso!) está pagando para que seus interagentes baixem músicas e façam uso disso particularmente. Se outra pessoa quiser a mesma música, terá de solicitar outro download. A biblioteca paga por um serviço que depois não poderá catalogar para ser buscado, emprestado e arquivado.

Imagine você caminhando por uma biblioteca, chegando a um bibliotecário e solicitando um livro e ele vai até a livraria mais próxima e o compra para você. A comunidade como um todo será beneficiada deste recurso? Agora, imagine se os impostos fossem usados para construir uma rua particular, onde somente um cidadão poderá circular. Não será um recurso comum, não será econômico e o uso de investimento de toda uma comunidade beneficiará somente um indivíduo.

Freegal é um dos piores exemplos de distribuição de dinheiro. A missão das bibliotecas não é sobre a distribuição de riqueza. Você deve esperar construir algo para o bem comum, que toda a comunidade possa usar.

Estímulo econômico

Relacionado com a compra coletiva, a ideia é que as bibliotecas consigam impulsionar a economia de suas comunidades.

Pesquisadores de Indiana descobriram que:

“Bibliotecas tem um valor enorme. Os benefícios econômicos diretos que as comunidades recebem das bibliotecas são significativamente maiores que os custos para mantê-las funcionando[1].”

Detalhando:

  • Comunidades de Indiana recebem 2,38 dólares de benefícios econômicos diretos para cada dólar de custo com a biblioteca.
  • Os salários em bibliotecas públicas e despesas em geral trazem um adicional de 216 milhões de dólares na atividade econômica de Indiana.
  • Os salários em bibliotecas universitárias e despesas geram um adicional de 112 milhões na atividade econômica de Indiana.

Em Wisconsin, eles aparentemente são ainda melhores no sentido de conseguir este retorno para cada dólar investido, pressupondo que:

“A contribuição econômica total das bibliotecas públicas de Wisconsin para e economia de Wisconsin é de 753.699.545 dólares. O retorno sobre o investimento nos serviços das bibliotecas é de 4.06 dólares para cada dólar de imposto do contribuinte.[2]

Para você não desconfiar que eu tenho escolhido a dedo somente bons estados, dá uma olhada nestes outros exemplos[3]:

 

Estado Retorno para cada 1 dólar investido Ano do estudo
Colorado $5 2009
Florida $6.54 2004
Wisconsin $4.06 2008
Indiana $2.38 2007
Pennsylvania $5.50 2007
South Carolina $4.48 2005
Vermont $5.36 2006–200
Região Retorno para cada 1 dólar investido Ano de estudo
Charlotte, NC $3.15–$4.57 2008–2009
Saint Louis, MO $4 1999
Southwestern Ohio $3.81 2006
Suffolk County NY $3.93 2005
Pittsburgh, PA $3.05 2006

De onde é que vem toda esta impulsão econômica? Bem, em parte é do poder da compra coletiva das bibliotecas que foi discutido anteriormente. Se você não precisa comprar um livro ou alugar um filme porque utiliza dos recursos da biblioteca, isso já é um impulso. Em outra parte, isso vem do fato que bibliotecas são empregadores com trabalhadores que pagam impostos (e contribuem para a economia local). Mas isso vai além de poupar dinheiro. Na educação superior, “bibliotecas são um fator bastante considerado quando estudantes estão selecionando a universidade onde querem estudar, o que mostra que as bibliotecas acadêmicas podem também impulsionar o número de matrículas”.

O impacto econômico das bibliotecas também vem de bens intangíveis como a criação de um espaço cívico que atraia negócios e desenvolva atividades socioeconômicas. Recentemente, durante a crise econômica dos últimos anos, as bibliotecas assumiram um papel importante ao ajudar candidatos a empregos. Em algumas delas, elas simplesmente oferecem a desempregados um espaço com acesso a computadores e oficinas de como montar um currículo.

Vamos agora analisar outra iniciativa interessante: o Transform U. Este é um projeto de várias bibliotecas públicas de Illinois. Os bibliotecários descobriram que quando as pessoas estão procurando um emprego, elas querem também algo a mais, querem uma grande mudança em suas vidas. Talvez fosse melhor então se voltassem à escola. Talvez eles precisem do auxílio dos serviços sociais para ajudar a alimentar suas famílias. Eles definitivamente precisam alimentar um senso de respeito e autoestima. Para satisfazer estas necessidades, os bibliotecários criaram parcerias com escolas locais, agências de serviços sociais e agências de desenvolvimento econômicos. Agora, os desempregados que vão às bibliotecas públicas locais, tem uma rede de apoio completa que os ajuda a interpretar longos contratos e a navegar por confusos sites governamentais. Eles agora entendem melhor como utilizar as ferramentas da web para encontrar um emprego ou mesmo para montar o seu próprio negócio. Estes bibliotecários foram além do que costumam trabalhar para chegar direto às necessidades de sua comunidade.

Uma pequena biblioteca em Eureka, Illinois, mostra outra maneira em que bibliotecas podem contribuir para o desenvolvimento econômico: empreendedorismo. Quando uma senhora foi até a Biblioteca Pública de Eureka procurando informações sobre como abrir um novo negócio, algo maravilhoso aconteceu. Ela percebeu que havia a necessidade de mais locais abertos para almoço na cidade. Ela já era capacitada como chef e quando teve a ideia de abrir o novo restaurante, precisava saber como proceder. Ao invés de somente indicar alguns recursos e procedimentos para se abrir um novo negócio, a biblioteca ofereceu à mulher um espaço dentro da própria biblioteca para, uma vez por semana, ela projetar o seu negócio. Com o passar do tempo, o local tornou-se regular. “Chef Katie” conseguiu criar um restaurante de sucesso e ainda atendeu as necessidades de Eureka.

Eureka não é a única que ajuda os membros de sua comunidade a encontrar empregos e abrir seus próprios negócios. A Biblioteca Pública de Dallas fez uma mudança significativa em seu quinto andar, trocando estantes por mesas e quadros brancos. Convidaram empreendedores locais para que trabalhassem na biblioteca, sem cobrança de aluguel. Agora, ao invés de ter suas ideias sozinhos em suas casas, eles se reúnem e utilizam a sala até para uma conferência.

Este espírito de startup não se limita às bibliotecas públicas. A Escola de Estudos da Informação da Universidade de Syracuse tem uma forte ênfase nas startups, muitas vezes reunindo graduandos de todo o campus para um grupo de negócios. Os bibliotecários sentam com esses grupos para fazer análise competitiva de mercado e pesquisar a inovação das novas ideias. Nas empresas de todo o país, os bibliotecários estão criando patentes, avaliando a competitividade de mercado e fornecendo capacitação contínua para advogados, médicos e até para fabricantes de computadores para alavancar os seus negócios.

Como sabemos, as bibliotecas já fornecem benefícios econômicos para suas comunidades. Entretanto, à medida que avançamos, podemos esperar mais delas. Devemos acreditar que qualquer tipo de biblioteca possa garantir a economia de sua comunidade e ajudar a criar novas indústrias.

Centro de Aprendizagem

Para as bibliotecas, este argumento se baseia na famosa crença de que o melhor aprendizado acontece em ambientes ricos de informação. Em instituições acadêmicas, isso pode ser interpretado dentro das bibliotecas que de forma abrangente buscam formar um acervo de qualidade com trabalhos acadêmicos e periódicos científicos. Em bibliotecas públicas, isso se amplia para uma diversidade muito maior de assuntos, não apenas a ficção de best sellers. Um centro de aprendizagem é a legítima razão da biblioteca escolar existir.

Alfabetização, aprendizado e estudo sempre estiveram associados com bibliotecas. De fato, a maioria dos diretores de bibliotecas da Idade Média eram estudiosos e também responsáveis por manter o acervo. Esta tendência ainda continua em alguns casos: a Biblioteca do Congresso, por exemplo, é chefiada por um historiador.

Na década de 1990, este argumento de que as bibliotecas são espaços de aprendizado direcionava as bibliotecas públicas a serem apelidadas de “universidade do povo”. Melvil Dewey, criador do Sistema de Classificação Decimal, acreditava que as bibliotecas públicas e escolas públicas eram instituições iguais. Na verdade, as bibliotecas públicas não montavam seus acervos com ficção ou materiais populares porque as pessoas daquela época não ligavam a alfabetização, ou “o amor pela leitura”, como falamos hoje, com o aprendizado.

Atualmente, as bibliotecas ainda mantem o conceito de aprendizado presente em suas missões. Uma das campanhas nacionais de marketing de mais sucesso realizada pela Associação Americana de Bibliotecas foram pôsteres de “Leia” e traziam celebridades que apoiavam a leitura. Programas de leitura de verão encorajam o hábito pela leitura, uma habilidade necessária para todo aprendizado ao longo da vida. Bibliotecas escolares são muito envolvidas com o processo de alfabetização, começando com habilidades básicas de leitura e pesquisa, aos exercícios de pensamento crítico. Até mesmo as bibliotecas universitárias e empresariais podem se envolver com a competência em informação, por exemplo, no ambiente das mídias sociais (decifrar o que é tendência ou saber como interpretar dados de visualização).

No entanto, enquanto fico dissertando sobre a importância deste argumento, a justificativa ainda é vaga. Por exemplo, é suficiente criar um ambiente rico de recursos que facilitam a aprendizagem? Se eu deixasse uma criança de dois anos sozinha neste ambiente e voltasse em dois dias, ela já saberia ler? Claro que não.

Parte do que podemos esperar de nossas bibliotecas e bibliotecários é desapegar do bom senso do passado e dos argumentos focados em atividades mensuráveis. Por exemplo, sua biblioteca pública trabalha diretamente com os distritos escolares K-12[4]? Como fazer com que o acervo da biblioteca universitária realmente atenda a todos os cursos da universidade? Quais cursos e serviços podem ser oferecidos, para quem, por quem e com quais expectativas? Estocar recursos definitivamente não melhora a educação.

Voltaremos a alguns destes temas no decorrer do livro, uma vez que agora trabalharemos as bibliotecas e as redes de segurança social.

Rede de segurança

Quando você pensa em rede de segurança social, você provavelmente pensa em pobreza. Só para lembrar, as bibliotecas devem oferecer um mundo de recursos e serviços àqueles que tem menos condições de pagar. Entretanto, a rede de segurança que deve compreender a biblioteca deve ir além de uma questão socioeconômica. Pouquíssimas pessoas podem pagar o quanto as bibliotecas pagam pelas suas bases de dados, mas o argumento da rede de segurança ainda vai além do que simplesmente pagar por todos estes recursos.

As bibliotecas públicas têm trazido informação para aqueles que de alguma forma são incapazes de adquiri-la. Em parte, isso ainda tem relação com o que abordei há pouco, mas a rede de segurança hoje também inclui como prover acesso à internet nas áreas rurais. Atualmente, algumas bibliotecas já estão fornecendo acesso à internet dentro de pequenas bibliotecas rurais. Um estudo de 2008 mostrou que ¾ das bibliotecas públicas são a única forma de acesso à internet nestas comunidades. Em Vermont, o governo do estado está construindo uma rede de fibra ótica para conectar bibliotecas rurais em todo o estado, fazendo com que cada biblioteca seja um ponto de acesso para negócios e entretenimento.

Em tempos de redes digitais, bibliotecas de todos os tipos estenderam a rede para além do acesso, para ser uma nova alavanca para o desenvolvimento digital do conhecimento. Ainda é um desafio conectar pessoas à internet e cada vez mais as ferramentas digitais são necessárias para o trabalho e a vida delas, portanto, o maior desafio ainda é ajudar essas pessoas a tirar proveito dessas ferramentas. Por exemplo, depois do Natal de 2011 as bibliotecas públicas receberam inúmeras pessoas com seus iPads e Kindle Fires. Muitos tinham comprado ou ganhado de presente, mas sem saber que precisavam de uma conexão wi-fi para funcionarem. Foi então que os bibliotecários ajudaram baixando aplicativos que possibilitassem a aquisição de livros, vídeos e músicas para estes aparelhos.

Se você expandir esta ideia de preencher as lacunas de conhecimento, poderá perceber que não é somente um papel das bibliotecas públicas. As bibliotecas escolares, por exemplo, não estão emprestando seus livros somente para os alunos, mas também para os pais deles. Em cada biblioteca universitária, bibliotecários estão providenciando aos acadêmicos ferramentas básicas de pesquisa que eles não têm acesso em sala de aula. Já os bibliotecários da área do Direito compõem vital competência informacional para advogados e juízes. No Departamento de Justiça dos Estados Unidos, alguns bibliotecários fazem parte de equipes dentro do Ministério Público, onde o trabalho principal é identificar peritos que desmascarem falso testemunho no tribunal.

Aqui novamente chegamos a um ponto em que, na medida que avançamos, podemos esperar mais das bibliotecas. Quando há alguma crise econômica, muitas vezes os governos costumam não dar tanto apoio direto ao público. Serviços fiscais, de emprego e outros de cunho social não são mais tão evidentes e facilmente encontrados; nisso, a biblioteca deveria encarar como uma oportunidade também para atuar. Como enviar um currículo online, como realizar um serviço num site governamental, ter acesso à música e literatura online. Precisamos de bibliotecários que ensinem, resolvam problemas e advoguem por sua comunidade.

Mordomo do patrimônio cultural

No terceiro andar da Biblioteca Central da Biblioteca Livre da Filadélfia, você irá encontrar uma biblioteca – sim, uma biblioteca normal como qualquer outra. Esta é a biblioteca de William McIntire Elkins, um rico investidor bancário da Filadélfia e notável colecionador de livros do século XX. O objetivo não foi fazer uma cópia da biblioteca de Elkins, mas simplesmente levá-la por completo de sua casa para a Biblioteca Livre. Não somente os livros, mas as mesas, o globo, os painéis de madeira da parede, os tapetes – a biblioteca inteira. Não é nada incomum para grandes bibliotecas possuir esses acervos especiais.

A importância das bibliotecas para a preservação de nosso patrimônio cultural não é um argumento que você ouvirá tão frequentemente em nossos dias atuais. A ênfase dos últimos 30 anos tem se mantido na informação e nos recursos que tem impacto direto e imediato no ensino, aprendizado e recreação. Entretanto, ao passar dos séculos e em muitos países, a preservação da produção cultural (trabalhos artísticos, manuscritos e outros) era a razão principal por trás das bibliotecas. É por isso que você ainda encontra um folio original dos textos de Shakespeare na Biblioteca Pública de Dallas e uma Bíblia de Gutenberg no Ransom Center da Universidade do Texas.

Nos países nórdicos, as bibliotecas são frequentemente construídas com museus e teatros. E, até hoje, se você for a Itália terá dificuldade em encontrar uma biblioteca pública. Isso porque elas não estão lá para o público usual, mas para estudiosos e estudantes. Como um bibliotecário italiano uma vez me falou: “Na Itália nós não vamos à biblioteca procurar a receita de um bolo, isso nós perguntamos às nossas mães”. Em outras palavras, a biblioteca não serve para tarefas cotidianas.

Muitas bibliotecas norte-americanas, principalmente as universitárias, ainda constroem fantásticas coleções de arte e tesouros históricos. Mas a forma de tratar o patrimônio cultural nas bibliotecas também está mudando. Atualmente, para preservar artefatos culturais, os bibliotecários estão trabalhando com a comunidade para resgatar a cultura de hoje. Ken Lavander, professor na Universidade de Syracuse, trabalha com voluntários e estudantes na própria comunidade, capturando histórias, digitalizando caixas de sapato cheias de fotos, como uma forma de ajudar a passar esta herança para as futuras gerações.

Saber da nossa história, como nós éramos no passado, é peça fundamental para avançarmos. Portanto, devemos agora esperar muito mais das bibliotecas, não somente como um depósito de trabalhos de grandes homens do passado, mas também preservar o que acontece hoje.

Berço da democracia

Podemos ter bibliotecas sem democracia e democracia sem bibliotecas – basta olhar através do percurso da História. Entretanto, eu diria que se quisermos viver numa democracia liberal, as bibliotecas são necessárias.

Os Estados Unidos são uma democracia liberal. Canadá é uma democracia liberal. França, Alemanha, Índia e Israel são também democracias liberais. A palavra “liberal” neste caso não tem nada a ver com partido político ou mesmo com um país socialmente progressista; o “liberal” refere-se à crença de que democracia é muito mais que o voto. Uma democracia liberal significa proteger a liberdade civil, bem como uma proteção constitucional contra um governo intrusivo. É um importante modulador. Iraque, sob o poder de Saddam Hussein, teoricamente era uma democracia. Hussein foi eleito com 99% dos votos, mas são poucos que consideram o país verdadeiramente como uma democracia liberal.

Por que as bibliotecas são tão importantes para isso? Uma resposta curta é que uma verdadeira democracia requer a participação de uma sociedade bem informada. A principal missão das bibliotecas, públicas ou de qualquer outro tipo, é criar uma nação de cidadãos proativos e informados.

Quando um defensor de uma biblioteca defende esta missão, é bem provável que ele conheça alguma dessas três famosas frases:

“As pessoas são os únicos censores de seus governantes e até mesmo seus erros tenderão a manter os verdadeiros princípios de suas instituições… O modo de prevenir estes erros é instruir com informação de qualidade através de seus canais de documentos públicos e fazer com que toda a população tenha acesso; se fosse a mim dada a decisão de ter um governo sem jornais, ou jornais sem um governo, eu não hesitaria em nenhum momento em escolher o último. Sendo a necessidade do povo a base de nosso governo, o primeiro direito a ser mantido é este acesso.” – Thomas Jefferson

“Não há um berço da democracia tal qual a Biblioteca Pública Livre, esta república das letras, onde não há classificação, governo ou riqueza com a mesma consideração”. – Andrew Carnegie

“Um governo popular sem informação popular, ou sem os meios de acessá-la, é o prólogo para uma farsa ou tragédia, quem sabe a ambos. O conhecimento sempre governará a ignorância e um povo que pretenda ser seu próprio governante deve utilizar o conhecimento como uma munição”. – James Madison

Estas três frases transmitem uma mensagem em comum: um cidadão informado é necessário para constituir uma democracia. Entretanto, cada uma destas frases enfatiza um aspecto diferente: Jefferson fala sobre transparência, Carnegie sobre acesso e Madison sobre educação. Boas bibliotecas possuem os três aspectos. Vamos analisar cada um deles, começando pela transparência.

Democracia e transparência

Em sua frase, Jefferson claramente está falando sobre os jornais e a imprensa, não bibliotecas. No entanto ele ainda enfatiza a necessidade da transparência, que é um objetivo comum entre bibliotecários e jornalistas. Você não vota com a intenção de colocar políticos num escritório e aguardar a próxima eleição. Deve haver a supervisão das ações dos eleitos para evitar abusos e moldar um discurso cívico e político. Watergate não foi solucionada por uma eleição, mas através da aparição de documentos e provas de atos de corrupção por parte do governo eleito.

São inúmeras as maneiras de como as bibliotecas podem promover a transparência. Elas podem trabalhar dentro do governo com documentos, arquivos e disseminar o trabalho das agências. Por exemplo, se você quer saber como cada lei foi aprovada no Congresso dos EUA, basta acessa o site da Biblioteca do Congresso e procurar na base de dados THOMAS. Se você gostaria de acessar alguma pesquisa financiada pelo Instituto Nacional de Saúde, clique dentro da Biblioteca Nacional de Medicina e procure pela base de dados PubMed.

As bibliotecas podem promover transparência inclusive fora do governo federal. Aproximadamente 1250 bibliotecas públicas e acadêmicas de todo o país têm acesso a documentos por meio do Programa Federal do Repositório da Biblioteca. Se uma agência do governo publica um relatório, brochura, formulário ou regulamento, tudo é depositado neste repositório, o que favorece o acesso público a estes documentos.

Além do nível federal, cada estado tem uma biblioteca de acesso público com leis, regulamentos e decisões judiciais de cada jurisprudência. Muitas bibliotecas localmente também guardam trabalhos de câmaras municipais e outros conselhos. A ideia é que cada cidadão possa observar o trabalho dos governantes e participar na tomada de decisão.

Há enormes desafios que bibliotecas e cidadãos enfrentam em termos de transparência (como arquivamento de documentos em sites que estão sempre mudando, classificação dos documentos e outros), mas retornaremos a isso mais tarde.

Democracia e acesso

O que Carnegie fala em sua frase é sobre a igualdade de acesso ao trabalho do estado. Claro, ele fez mais que somente falar sobre isso; ele é considerado uma espécie de santo patrono das bibliotecas após ter construído mais de 2500 delas ao redor do mundo.

Na época de Carnegie, ter acesso a algo significava ter acesso a uma cópia impressa das coisas, ou seja, ter acesso a livros. Hoje, qualquer tipo de biblioteca amplia a ideia de acesso a outros suportes. Isso pode ser observado facilmente com o advento da Internet e o acesso a computadores em bibliotecas públicas. Na política das bibliotecas que dão cartões de usuário gratuitamente isso também pode ser observado. Em muitos outros países você precisa pagar uma taxa para ganhar o cartão ou mesmo utilizar os computadores.

A importância do acesso também pode ser vista nas bibliotecas universitárias que permitem acesso público ao invés de restringir para o corpo docente. Esta possibilidade de acesso gira em torno dos milhões de dólares para as bibliotecas estaduais que gastam em licenças de uso de bases de dados, dando igualdade de acesso para a comunidade urbana, suburbana e rural.

Claro que todo o acesso do mundo não servirá para nada se ao menos você não souber o que fazer com a informação que está acessando. É agora que entra o ponto levantado por Madison.

Democracia e Educação

Madison disse: “Um povo que pretende ser seu próprio governante deve se armar com o poder que o conhecimento lhe dá”. O que eu mais gosto nesta frase é o uso ativo do verbo “armar”. Ter acesso à informação gerada pelo trabalho da democracia não é o suficiente. Acessar uma lei online e não poder ler não serve para nada. Ou mesmo que você saiba ler, é necessário saber o que você pode fazer com esta lei em mãos.

Para que uma democracia funcione ela deve desenvolver ativamente (ou nas palavras de Madison, se “armar”) uma população. Este argumento é o centro da educação pública neste país. No entanto o setor da educação está lutando com um currículo complexo, mas com uma taxa de evasão no ensino médio de 8% (na comunidade latina, este índice sobe para 17,6%). A educação pública primária e secundária sequer chega perto dos 12% da comunidade adulta dos EUA que não tem a educação básica.

Bibliotecas públicas, escolares e universitárias são todas para trabalhar a educação para uma democracia participativa. É uma expansão do argumento da rede de segurança, mas ao invés da segurança para a participação econômica e bem-estar, é uma rede de segurança para saber, para conhecer, para aprender.

Democracia e Grandes Expectativas

Democracia não é algo fácil, limpo ou organizado. Atualmente, em meio à correria do dia a dia, e-mails e lutas diárias, não conseguimos separar um tempo para nos encaixar no esquema democrático das coisas. Em sua biblioteca você encontra os livros e computadores, mas e itens (produtos ou serviços) que promovam a democracia? Você sabe se a sua biblioteca tem um trabalho ativo para promover a democracia?

Deixe-me explicar melhor: não é somente uma questão política ou ideológica. Não é saber se a biblioteca está aliada com um partido ou candidato. Mais que isso, é saber a diferença que a biblioteca pode trazer para o governo (seja de uma cidade, universidade, escola ou empresa). Você sabia que metade do orçamento da Biblioteca do Congresso é dedicado para algo chamado Serviço de Pesquisa do Congresso? O Serviço:

… trabalha exclusivamente para o Congresso dos Estados Unidos, fornecendo análises políticas e legais para os comitês da Casa Branca e do Senado, independente da filiação partidária. Como uma agência do poder legislativo atuando dentro da Biblioteca do Congresso, o Serviço de Pesquisa do Congresso tem sido um recurso valioso e respeitado no Capitol Hill por aproximadamente um século.

Sua biblioteca tem um serviço similar voltado aos políticos locais, presidência, CEOs e outras grandes chefias? Não deveria uma boa biblioteca escolar manter o seu diretor bem informado?

Símbolo das aspirações da comunidade

As bibliotecas sempre foram sobre as ideias, aspirações e sonhos dos indivíduos. Os bibliotecários podem lhe contar histórias incríveis sobre as pessoas que ajudam. De salvar uma mulher de um relacionamento abusivo a salvar um paciente do câncer, as bibliotecas têm tido um impacto na vida das pessoas.

Francamente, o que eu desejo que os bibliotecários possam um dia contar é sobre as esperanças e desejos de suas comunidades, pois elas têm vários deles. Sonham uma vida confortável ou em ser líderes em um setor de produção. Obviamente estes sonhos não são tão declarados quanto os sonhos individuais, mas eles representam uma espécie de desejo holístico sobre a política, recursos financeiros e a visão que o resto do mundo tem sobre a comunidade.

Bibliotecas tem se tornado locais que inspiram. A começar pelos seus prédios, que costumam representar às suas comunidades um símbolo de conhecimento. San Francisco, Seattle, Salt Lake City e Vancouver estão todas usando os prédios das bibliotecas para revitalizar o centro da cidade. A bela arquitetura das bibliotecas tem se tornado as novas catedrais – um modo concreto para a comunidade sobre a sua importância.

O poder da arquitetura e as demonstrações que buscamos fazer com prédios de bibliotecas em particular, não podem ser negadas. Patrocinadores de universidades estão dando seus nomes às bibliotecas e os arquitetos muitas vezes vislumbram mais o prédio e esquecem da função da sua existência, de sua missão.

Quando se trata da biblioteca que queremos, entretanto, precisamos olhar para o poder de um prédio em comparação com o poder dos serviços que ali dentro são oferecidos. Barbara Quinta, colunista da Information Today’s da revista Searcher, certa vez disse que uma biblioteca depois de algumas horas é um recife de corais sem peixes – ela é linda e serena, mas precisa de vida.

Da mesma forma se você tirar os bibliotecários, funcionários, mas deixar os livros, computadores e a arquitetura, você terá somente uma biblioteca que irá parar no tempo. Mas, se você jogar fora os livros e os outros equipamentos e ficar com um grupo dedicado de profissionais, você será convidado a participar do futuro.

Mais do que nunca, o futuro de uma comunidade não está nas riquezas em terra, mas nas decisões e talentos dos cidadãos. Eles não são consumidores passivos de conteúdo da biblioteca, eles são a própria razão da biblioteca existir. Eles merecem uma nova Biblioteconomia, merecem novas bibliotecas que permitam mudanças radicais. Francamente, você irá ouvir estes argumentos de bibliotecas boas e ruins. A verdadeira questão é como tornar realidade estes desejos para que as bibliotecas continuem relevantes no futuro.

[1] O impacto econômico das bibliotecas no estado de Indiana: http://www.ibrc.indiana.edu/studies/EconomicImpactofLibraries_2007.pdf

[2] A contribuição das bibliotecas públicas de Wisconsin para a http://dpi.wi.gov/pld/pdf/wilibraryimpact.pdf

[3] O valor das bibliotecas universitárias: http://www.ala.org/acrl/sites/ala.org.acrl/files/content/issues/value/val_summary.pdf

[4] Nota do tradutor: as escolas K-12 integram o ensino básico primário com o secundário, existem nos Estados Unidos, Canadá e Austrália.

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