4. Facilitando a criação de conhecimento

Foi um inverno excepcionalmente quente em Syracuse, mas ainda assim frio, como pude perceber ao caminhar com meus dois filhos – Riley de 11 e Andrew de 8 anos – até a Biblioteca Pública de Fayeteville. Fayeteville é um subúrbio de Syracuse, onde a biblioteca foi construída na antiga fábrica Stickley Furniture. Lá, fomos ao encontro da bibliotecária Lauren Britton, que iria nos mostrar seu trabalho com impressão 3D.

Meses antes, Sue Considine, diretora da Biblioteca, tinha anunciado com bastante empolgação a criação de um Fab Lab. Neste espaços, os membros da comunidade poderiam manusear impressoras 3D e outras máquinas de serviço manufaturado. Lauren Britton teve esta ideia ainda quando era estudante de pós-graduação em Biblioteconomia.

Na visita, a Lauren instalou a impressora 3D, uma MakerBot Thing-o-Matic. É uma “caixa” de uma aparência um pouco estranha, com 2 metros em cada uma de suas dimensões. Esta máquina não é um equipamento de alto padrão que custa milhares de dólares e que é utilizada por grandes fabricantes. A MakerBot é uma máquina de código aberto que custa menos de 2 mil dólares e vem crescendo no mercado, criando inclusive uma comunidade “Maker”.

Em seguida, a bibliotecária nos mostrou a impressora funcionando. Poderíamos imprimir nossa própria ideia ou baixar algo pronto a partir de milhares de modelos pré-fabricados disponíveis online. Começamos imprimindo um anel, que Andrew depois levou para a sua sala de aula e explicou aos colegas como o fez na biblioteca, já Riley imprimiu um robô.

Por enquanto a MakerBot é limitada para impressão de pequenos objetos, mas ainda assim ela pode nos mostrar o potencial do que está por vir. Imagine se em algum momento você tiver uma ideia para um novo aparelho ou queira imprimir uma estátua famosa, você simplesmente poderá fazê-lo. Não é bom com desenho 3D? Basta tirar algumas fotos de um objeto com as três dimensões, girá-lo na frente de um Xbox Kinect e enviar o modelo para a impressora. Acredite, isso não é ficção científica, já está acontecendo!

Mas por que tudo isso em uma biblioteca? Não é uma pergunta retórica, mas ela surgiu em vários sites de tecnologia quando a Biblioteca de Fayeteville anunciou o seu Fab Lab.

Não quero responder esta questão agora, mas sim ampliá-la. Depois de tudo o que você leu, onde explorei um capítulo dizendo que as bibliotecas não são espaços exclusivos para livros, como se tornar um Fab Labs? Como definir sem limitar os produtos e serviços de uma biblioteca? Se não devo esperar que a biblioteca seja um depósito de livros, o que devo esperar? O que uma biblioteca deve fazer?

Biblioteca como facilitadora

Em uma só palavra, o que bibliotecas e bibliotecários fazem é facilitar.

Para alguns pode parecer um pouco contraditório. Revoluções no Egito, Fab Labs e inspirar a comunidade parece que exigem uma palavra mais “forte” que facilitar, algo do tipo “empoderar”, “advogar” ou até mesmo “inspirar”. Bibliotecas deveriam fazer tudo isso. Lembre-se que facilitar é apenas uma pequena parte de toda missão de “melhorar a sociedade facilitando a criação de conhecimento em suas comunidades”. A palavra fundamental é “melhorar”, o que significa que é algo ativo, que está sempre acontecendo. Melhorar não é ficar sentado e esperando que alguém te convide… ninguém consegue mudar o mundo esperando sentado por um convite. É necessário ser pró-ativo, colaborativo e inovador. Bibliotecas e bibliotecários trabalham para facilitar a criação de conhecimento, trabalhando para tornar você e sua comunidade mais inteligentes.

As bibliotecas fazem (ou deveriam fazer) isso de quatro modos:

  1. Fornecem acessos
  2. Fornecem capacitações
  3. Proporcionam um ambiente seguro
  4. Motivam para aprender

Cada um destes modos de facilitar podem ser um pedaço que constrói a ponte para o aprendizado, tendo acesso ao conhecimento. Depois de ter o acesso, é necessário compreender como usá-lo e assim, num espaço seguro, querer usá-lo.

O primeiro modo é bastante comum pelas bibliotecas: prover o acesso. Todas tentam alcançar os quatro modos, ao menos teoricamente. O único problema é que as bibliotecas se preocupam mais em como providenciar o acesso ao conhecimento do que ajudar a sua comunidade a criá-lo. Se nossas bibliotecas quiserem continuar a existir no futuro, dando suporte a suas comunidades, elas precisam trabalhar muito melhor sob este aspecto.

O que é conhecimento?

Primeiro, eis o que conhecimento não é: um acúmulo calmo e passivo de fatos. Não é uma base de dados com artigos ou um prédio cheio de livros. Conhecimento não é medido, estático, desapaixonado.

Conhecimento é algo intrinsecamente humano e intimamente ligado às paixões do indivíduo. Conhecimento é dinâmico, sempre mudando. Ele nos direciona para questionar o mundo, questionar um ao outro, a Deus, a natureza. Conhecimento é uma força que direciona a economia, as artes e induz os bibliotecários para serviços. O conhecimento é construído em nossas bibliotecas, nossas universidades, nossas casas, bares e carros. Conhecimento é, em uma última análise, a forma como vemos o mundo determinando como agimos.

Ter a noção de que o conhecimento é dinâmico é bastante importante quando falamos a respeito do que podemos esperar mais das bibliotecas. Se você visualiza o conhecimento como algo contido em livros, artigos, bases de dados, você facilitará a criação de um novo conhecimento quando disponibiliza estes artefatos. Agora, se você vê o conhecimento como algo mais dinâmico, que é criado pelos interagentes, pela comunidade, então é necessário mudar radicalmente sua biblioteca, tornando-o um espaço ativo de aprendizagem.

Esta visão dinâmica de conhecimento e aprendizagem mudará como ensinamos as crianças nas escolas. Foi-se o tempo em que o modelo de ensino do “professor no palco” era visto como a melhor forma de entregar o conteúdo que há no currículo do curso. Agora os alunos criam conhecimento, colocam a “mão na massa”, trabalham juntos em projetos. Longas horas de slides de PowerPoint estão sendo trocados por simulações e jogos. As ciências cognitivas e de aprendizagem nos mostram que as pessoas não são espaços vazios à espera de alguém que os encha de conhecimento; muito pelo contrário, quem aprende é proativo. Aquele professor que ficava no palco agora está ao lado do aluno e nossas bibliotecas devem passar pela mesma mudança.

Provavelmente esta noção de conhecimento construído de maneira ativa seja a grande expectativa de mudança que queremos em nossas bibliotecas, tornando-as melhores e mais efetivas. Para que isso aconteça, é importante que a biblioteca se permita. Certamente, em muitos casos, somente ler sobre um assunto é o suficiente, mas em outras situações, é necessário praticar e experimentar, explorar e aprender.

Buffy Hamilton, bibliotecária da “Biblioteca Inquieta” da Escola de Ensino Médio Creekview en Canton, Georgia, sabe muito bem disso. Buffy não fica organizando prateleiras e livros. Ela está mais ocupada em projetos como o Media 21, que ela descreve como:

“O bibliotecário escolar e a professor de Inglês do segundo ano trabalhando juntos num projeto ao longo do semestre criando uma experiência participativa de construção do conhecimento utilizando mídias sociais e ferramentas de computação em nuvem. As ferramentas utilizadas foram do Netvibes ao Evernote e Google Sites, estudantes blogavam, contribuíam em wikis, usando marcadores sociais, desenvolvendo portfólios de pesquisa e ensino, com o uso ético da informação. O programa foi avaliado pela Associação Americana de Bibliotecários Escolares nos Padrões para o Ensino do Século 21”

E Buffy não está sozinha. Sue Kowalski é bibliotecária na Escola de Ensino Médio Pine Groove, em East Syracuse, Nova York. Em 2011 sua biblioteca foi nomeada “Biblioteca do Ano” pelo Programa Nacional de Biblioteca Escolar da Associação Americana de Bibliotecários Escolares. Por quê? Não foi por causa de seu acervo ou arquitetura, mas por causa da aprendizagem que é engajada em todos os cantos da escola pelos alunos. Sue não guarda livros, ao invés disso, ela criou um grupo de estudantes (chamado “iTeam”) que cuida do acervo – e aprendem, ensinam novas tecnologias e solucionam problemas, e organizam eventos dentro e fora da biblioteca.

Como os bons bibliotecários escolares – aqueles profissionais que desejamos em nossas escolas – conectam e engajam a aprendizagem? Joyce Valenza, bibliotecária da Escola de Ensino Médio de Springfield Township desenvolve um manifesto sobre isso. O que você deve esperar de um bibliotecário escolar em termos de leitura?

  • Considere novos meios de promover a leitura: audiobooks, Playaways, Kindles, iPads, Nooks.
  • Compartilhe aplicativos de ebooks.
  • Promova a leitura, utilize redes sociais como Shelfari, Good Reads ou LibraryThing.
  • Veja o que seus alunos estão blogando e tweetando sobre leitura e promova estas postagens.
  • Até os descansos de tela dos computadores podem promover a leitura.
  • Divulgue links com ebooks gratuitos.
  • Avalie e comente livros em seus próprios blogs, wikis e outros websites. (Procure pela wiki Reading 2.0 e a BookLeads para ter algumas ideias).
  • Incorpore ebooks nos espaços virtuais da biblioteca e nos ambientes de aprendizagem.
  • Trabalhe em conjunto com os alunos para criar rodas de conversa sobre leitura e trailers de livros.

O manifesto continua, agora abordando comunicação e publicação:

  • A comunicação é o produto final da pesquisa, portanto, você deve ensinar os alunos a se comunicar de maneira efetiva e criativa. Considere novas ferramentas de interação e engajamento para os seus projetos.
  • Colabore com seus alunos, preencha o espaço da biblioteca com produções deles – seus vídeos, músicas, artes.
  • Conheça e divulgue os trabalhos publicados por seus alunos digitalmente (veja estas ferramentas: Digital Publishing, Digital Storytelling).

Esteja atento à colaboração. Se você ler todo o manifesto (que eu recomendo fortemente), verá que é algo muito diferente do modelo do professor no palco. Um bom bibliotecário escolar não se limita a um acervo, mas sim um parceiro ativo no processo de aprendizagem. Um bom bibliotecário escolar também é uma espécie de professor, que colabora com os demais a se aprofundar em algumas áreas. Este bibliotecário – que gostaríamos tanto que tivesse em todas as nossas escolas – orienta os alunos de maneira bastante livre e bem estruturada.

Quais os benefícios para a escola? Retenção de alunos e resultados de testes (como o ENEM, no Brasil) mais elevados. Estudos no Alasca, Colorado, Flórida, Indiana, Massachusetts, Michigan e Carolina do Norte apresentaram melhores resultados em testes onde havia um bibliotecário com este perfil. Um estudo na Pennsylvania mostra:

“A mera presença de um acervo grande de livros, revistas e jornais não é suficiente para que bons resultados acadêmicos sejam alcançados. Este acervo só trará resultados positivos se fizer parte de uma ação interativa envolvendo toda a escola, dentro da proposta curricular.”

Um aumento de desempenho escolar não vem simplesmente de ter uma sala chamada de biblioteca no prédio da escola, bem como também não está vinculado com o seu tamanho. Ele pode melhorar com a presença de um bibliotecário qualificado, mas não um mero bibliotecário escolar, mas um que seja bastante engajado, que trabalhe junto do professor e dos alunos, sem foco em suportes informacionais.

Depois de todos estes parágrafos, preciso deixar algo muito claro: escola sem bibliotecário tem alunos com baixo desempenho. Você sempre deve esperar mais da escola. Você tem um bibliotecário na escola e não sabe o seu nome? Espere mais dele. Se você é professor e não sabe como a biblioteca e o bibliotecário podem ajudar em sala de aula, a resposta está nas questões que o bibliotecário pode fazer. Se você é o diretor e vê a biblioteca somente como uma extensão da sala de aula ou um espaço para guardar livros, você precisa mudar seu modo de pensar urgentemente!

Expandindo a definição de facilitação

Toda esta ênfase na aprendizagem pode fazer bastante sentido na biblioteca escolar, mas e nas demais bibliotecas? Vamos voltar à nossa questão primordial: o que constitui um serviço de biblioteca? Vamos retornar aos significados de facilitação, mas desta vez acrescentando nosso senso mais dinâmico de conhecimento.

Fornecer acesso

Quando falamos de fornecer acesso, geralmente se associa o acesso a coleções. Isso mudou um pouco, pensando em informação de um modo mais amplo, mas ainda assim se pensa na informação que está em textos, imagens e diferentes materiais, digitais ou impressos. Aí está um grande problema ao se pensar em acesso. Em essência, muitas bibliotecas têm definido acesso como acesso ao seu acervo. É necessário esperar mais da biblioteca. É necessário pensar a biblioteca como uma plataforma onde se encontrem as ideias das pessoas, mas também que abra espaço para que os demais tenham acesso às suas ideias.

Joan Fry Williams, bibliotecário e um proeminente consultor de bibliotecas, resume isso quando diz que as bibliotecas devem passar de mercearias para cozinhas. Na primeira você somente adquire, compra ingredientes. É na cozinha, entretanto, que é onde estes ingredientes são combinados de acordo com suas habilidades e talentos, dando um significado a eles. Tendem a ser espaços sociais, onde tudo pode acabar em festa, porque é onde a ação acontece. Bibliotecas precisam ser cozinhas: espaços sociais ativos onde você mistura os ingredientes (informação, recursos, talentos) que se transformam num prato saboroso e suculento.

Isso é o que Joyce Valenza vem discutindo em seu manifesto quando ela fala sobre alunos publicando suas histórias e colaborando com os professores. Sua biblioteca fornece acesso não somente a materiais, mas a colegas, professores, as ideias da comunidade, e ferramentas como câmeras, laptops, sites de mídias sociais, livros, etc. Note que não foi o acesso a ferramentas que fez da biblioteca de Joyce uma excelente biblioteca, mas sim o acesso ao conhecimento e a comunidade em si.

Se sua biblioteca é simplesmente um lugar para consumir – acesso a publicações e outros itens – e não um lugar para criação, então você deveria acreditar mais.

Como uma biblioteca pode facilitar a criação de conhecimento através do acesso? Na biblioteca de Fayetteville isso foi alcançado com impressoras 3D e outros itens. Já as bibliotecas universitárias podem organizar grupos de estudo ou construir comunidades online. Por exemplo, aprender a trabalhar em equipe é uma competência cada vez mais frequente nos processos de ensino por professores universitários, pois quando os alunos são colocados nesta situação, aprendem a trabalhar de maneira colaborativa e interdisciplinar. No entanto, muitas vezes isso fica somente em sala de aula, não sendo visível a participação da biblioteca, que poderia apresentar ferramentas de colaboração online, acesso e edição de documentos ou até mesmo locais para armazenar citações e referências. A biblioteca pode prover diferentes maneiras de acesso. A biblioteca deveria ser um local para ir, seja fisicamente ou de maneira online, que ajudasse a criar e compartilhar ideias, que é como as comunidades aprendem: colaborando e conversando.

Claro, isso nos faz pressupor que as pessoas saibam trabalhar online suas ideias. Vamos discutir um pouco sobre isso?

Fornecer treinamento

Existe um vídeo fabuloso no YouTube chamado “Helpdesk medieval”. Ele mostra um homem do suporte técnico explicando como usar um livro. Ele começa de maneira bastante básica, desde como abrir um livro até como virar suas páginas. Ele ainda afirma: “Não, o texto não vai embora quando você vira a página e para desligar, basta fechar a capa”. Como qualquer boa piada, ela perde a graça quando explicada, portanto, vá assistir ao vídeo. Ele nos faz pensar de alguma forma de que precisamos aprender a usar os livros como ferramenta de criação de conhecimento, como se estivéssemos aprendendo a ler.

Qualquer tecnologia precisa de algumas instruções básicas para o modo de usar. Não aprendemos a ler dormindo em cima de livros. Acesso não é o suficiente. Precisamos acreditar que nossas bibliotecas ajudem a preparar a comunidade a se engajar num aprendizado sempre ativo.

Vamos agora para uma segunda forma de facilitar a criação de conhecimento: oferecer treinamentos. As bibliotecas deveriam trabalhar com os membros de sua comunidade numa atividade de aprendizagem especificamente que permitisse a própria comunidade a ter participação no ensino. Muitas bibliotecas já fazem isso. Em bibliotecas públicas, bibliotecários oferecem noções básicas de informática e escrita. Por décadas, bibliotecas universitárias oferecem capacitações em fontes de informação. Minha história predileta sobre treinamentos vem de uma biblioteca da área jurídica.

Um advogado chega para o bibliotecário e diz que revirou a noite atrás de uma informação a respeito de um perito adversário, com o qual estará na corte dentro de uma hora. O bibliotecário consegue encontrar a informação no LexisNexis em pouco mais de cinco minutos. E assim, temos mais uma daquelas histórias do “bibliotecário salvou o dia”, só que isso não é mais novidade para as bibliotecas. Bibliotecários oferecem este tipo de serviço de referência desde o início dos anos 90. O que faz esta história ser boa não é o resultado para o advogado e na realização de missão cumprida pelo bibliotecário.

O advogado estava procurando por informações sobre uma testemunha que é perita. Advogados chamam cientistas, engenheiros, médicos e uma variedade de profissionais para ajuda-los no caso. Se o advogado estivesse tentando defender um louco, ele chamaria um psiquiatra, se fosse um engenheiro químico, seria alguém desta área e assim por diante. Isso significa que o caráter e a competência da testemunha é muito importante. Portanto, os advogados chamam os especialistas justamente para se certificar das credenciais da testemunha, buscando identificar alguma falha ou evidência contraditória que ajude no caso.

O bibliotecário jurídico percebeu que, embora os advogados sejam experts sobre leis, encontrar e tirar o crédito dessas testemunhas é um caso de problema de informação que necessita de habilidades diferentes. Os advogados não eram especialistas em química ou psiquiatria e não sabiam argumentar tecnicamente com as testemunhas e buscar informações sobre o caso. Bibliotecários, por outro lado, conseguiriam e aí é que é o melhor da história. O bibliotecário não ia de advogado para advogado dizer que ele poderia ajudar e que era o melhor nesta tarefa, pois percebeu que ninguém gosta de ouvir que não é bom em alguma coisa e que somente procurar no Google este tipo de informação não é o suficiente. Então, eles criaram uma turma chamada “Assassinato de caráter 101”.

Nesta turma, eles falavam sobre pesquisa em artigos acadêmicos, como encontrar cientistas de determinadas áreas e assim por diante, sendo que após cada exemplo o bibliotecário mencionava “se você está ocupado, eu posso fazer isso por você”. Desta forma, o contato entre bibliotecários e advogados cresceu absurdamente, pois eles sabiam qual a melhor forma de encontrar informações, confiando nas habilidades do bibliotecário. Se o bibliotecário não tem muita ideia do que faz em uma organização, acredite mais!

Há diferentes exemplos de serviços de capacitação oferecidos por bibliotecas e muitos deles não são com os alunos sentados em uma sala de aula. Por exemplo, em Delaware, a Divisão de Bibliotecas do Estado uniu-se com os escritórios governamentais de desenvolvimento econômico e educação de adultos para construir centros de treinamentos voltados a ofertas de emprego e desenvolvimento de competências:

“Esta concessão trará uma grande diferença, sendo capaz de levar a tecnologia móvel para nossas bibliotecas e oferecer aos moradores de Delaware novos serviços que os ajudem a encontrar empregos e promover sua educação”, diz o governador Jack Markell”. Enquanto nossas bibliotecas fazem um trabalho fantástico com informação, estes novos serviços irão torná-las um recurso ainda mais valioso para nossos moradores, capacitando-os para um mercado de trabalho muito dinâmico”.

Nos casos das bibliotecas públicas que trabalham com a questão de empregos, muitas vezes só se fornece o acesso a computadores para acessar sites que ofertam vagas ou então para cadastrar currículos. É necessário ir além, trabalhar as competências e habilidades para a conquista da vaga.

Você deve se lembrar das bibliotecas do norte de Illinois que se uniram para criar o TransformU mencionado no Capítulo 2. Foram criadas parcerias por bibliotecários com faculdades da região, escritórios do governo e empresas locais no desenvolvimento de habilidades, onde o bibliotecário consegue facilitar todo o processo de contratação de novos funcionários

Estas ideias se estendem para as bibliotecas universitárias, onde alunos calouros são indicados a bibliotecários no momento da admissão, que orienta em todos os ambientes informacionais da instituição. São apresentados também alguns recursos fundamentais para o percurso acadêmico do aluno, sobre vida acadêmica, alimentação e outros.

Os bibliotecários universitários não devem parar por aí. Cada vez mais vocês devem se engajar nas salas de aula e departamentos, por exemplo: monitorando interação do conteúdo explicado via Twitter; interagir com o professor, lembrando-o de citações e livros de bibliografia básica. É necessário trabalhar diretamente com o corpo docente na criação de grupos de pesquisa, fornecendo capacitações.

Se a sua biblioteca – pública, universitária, escolar, especializada – não tiver capacitações para o melhor desenvolvimento das atividades de sua comunidade, então é necessário que se acredite mais.

Proporcionar um ambiente seguro

Abraham Maslow era professor de Psicologia. Ele sabia poucas coisas sobre treinamento e ensino. Sabia, por exemplo que no ambiente de trabalho é que se poderia aprender muitas coisas e assim, ele criou a Hierarquia de Maslow. Ela argumenta que para que as pessoas aprendam, é necessário que algumas necessidades básicas sejam atendidas, como por exemplo: bom ambiente físico e alimentação durante o horário de trabalho. A isso Maslow chamou de necessidades psicológicas. Entretanto, somente nessas condições não há aprendizado, pois o ambiente também precisa ser seguro, a quais ele chamou de necessidades de segurança. Há outros elementos desta hierarquia, mas para o propósito desta parte do livro, quero ficar somente na questão de segurança.

Comecei este livro durante a Primavera Árabe, quando sites de mídias sociais como Twitter e Facebook provocavam mudanças e protestos em massa no Egito. Só que é pouco mencionado que as mesmas mídias sociais também podem ser utilizadas para rastrear e reprimir os protestos. O Voice of America noticiou, por exemplo, que o governo do Bahrein está usando o Facebook para encontrar e prender os manifestantes.

“No Egito, as demandas dos moradores do Bahrein não foram atendidas. O governo sunita, com apoio militar, reprimiu as revoltas e, posteriormente, acessando os meios de comunicação, foram identificar e punir cada um dos manifestantes”

Autoridades do governo iraniano, junto da CIA e do Departamento de Polícia de San Francisco, monitoram as mídias sociais para identificar potenciais manifestações e impedi-las antes de iniciar. Sites como Google e Twitter estão ajustando suas políticas de uso para que sejam mais flexíveis com as atividades do governo. Por causa disso, em pouco tempo iremos ver nossa última manifestação organizada no Facebook.

Segurança física

 

A segurança pode ter diferentes vieses: os dois que as bibliotecas mais se preocupam é o da segurança física e o da segurança intelectual. Bibliotecas públicas muitas vezes são citadas como locais seguros. Crianças de rua podem ir às bibliotecas, por exemplo, o que é algo tão importante para os cidadãos da Filadélfia que, quando o prefeito tentou fechar 11 bibliotecas, a própria comunidade acionou a justiça impedindo o ato.

Esta ideia de proporcionar segurança física não se limita a bibliotecas públicas. Bibliotecas escolares muitas vezes tornam-se paraísos para crianças que tem dificuldade em se inserir em um grupo. Já para graduandos, as bibliotecas universitárias são lugares excelentes para estudar até tarde da noite. Como Maslow comentou, o ambiente físico realmente importa. Devemos esperar mais do que um guarda nas portas de nossas bibliotecas? Esta questão foi levantada pela Biblioteca Central da Filadélfia.

A Biblioteca Pública Central de Filadélfia passou por um problema com moradores de rua. Toda manhã, antes da biblioteca abrir, eles se reuniam em um parque que há em frente ao grande prédio Beaux-Arts. Quando as portas da biblioteca se abriam, eles rapidamente iam até os banheiros e depois encontrar um lugar para descansar confortavelmente. A situação ficou tão delicada, chegando ao ponto de um dos conselheiros da Biblioteca reclamar das condições dos banheiros.

Para chegar a uma solução, os bibliotecários foram atrás de aconselhamento com outras bibliotecas, para ver como cada um se defrontava com a situação. Muitos deles afirmavam que modificaram suas políticas, para minimizar um pouco do problema. Os bibliotecários de Filadélfia pensaram diferente.

A primeira coisa que eles fizeram foi conversar com moradores de rua que os banheiros devem sempre ser mantidos limpos. Depois, a biblioteca abriu uma cafeteria, que foi esforço comum de toda a comunidade local. Teve financiamento do Bank of America e os equipamentos foram doados pela Starbucks. As comidas vieram de uma cafeteria vizinha. A gestão deste espaço ficou a cargo dos próprios moradores de rua, que passaram por uma capacitação e treinamento constantes.

É isso que acontece quando a comunidade e os bibliotecários acreditam mais em si mesmos. Eles olharam para os moradores não como um problema, mas como indivíduos que poderiam trazer alguma mudança e que precisam de alfabetização, precisam de sustento e de uma vida digna.

Nós retornaremos no Capítulo 6 a questão do prédio físico da biblioteca e como ele pode, além de ser seguro, um espaço para inspirar os indivíduos. Por ora, vamos checar o outro viés de segurança.

Segurança Intelectual

Durante séculos as bibliotecas são campeãs em segurança intelectual. Bibliotecários perceberam que, assim como as pessoas precisam se sentir seguras dentro de um local, elas também querem estar seguras intelectualmente.

Talvez um caso extremo de bibliotecas como guardiãs de segurança intelectual tenha acontecido no caso judicial da Biblioteca Connection contra Gonzales. Com o Ato Patriota, aprovado após os ataques terroristas de 11 de setembro, o governo dos Estados Unidos poderia ter acesso a todos os registros pessoais nas bibliotecas e outras empresas para finalidade investigativa. Isso não é novo, pois o FBI tem esta garantia de acesso. Acontece que agora o FBI já não tem mais necessidade de solicitar autorização ao Supremo Tribunal para ter este acesso, basta que emita as chamadas Cartas de Segurança Nacional por conta própria.

Muitos dos bibliotecários não gostaram destas disposições impostas pelo Ato Patriota, pois por muitos anos sempre prezaram pela privacidade de seus usuários. Em outras palavras, se as pessoas que vão às bibliotecas acharem que aquilo que leem ou as páginas que navegam pela Internet estão sendo monitoradas pelos bibliotecários, eles se intimidam automaticamente. Os bibliotecários afirmam que para ter a melhor forma de construir conhecimento é ofertando diferentes fontes de informação. Para acessar estas fontes, a questão da segurança intelectual não diz respeito somente a informações seguras, mas sim se os interagentes sentem-se seguros para desenvolver suas ideias.

Com o Ato Patriota, os bibliotecários já não conseguem mais garantir este tipo de segurança. Em 2004, um grupo de bibliotecários de Connecticut sentiu que as coisas tinham ido longe demais quanto as liberdades civis e policiais e decidiram fazer alguma coisa: não aceitaram a Carta de Segurança Nacional, mesmo sabendo que poderiam ser presos por isso. Aparentemente os tribunais, incluindo a Suprema Corte, concordaram com a opinião dos bibliotecários e invalidaram a Carta.

Não quis contar esta história como um caso moral contra o Ato Patriota, mas sim mostrar que as bibliotecas: 1. mantem (ou ao menos deveria manter) a segurança intelectual e 2. conseguir manter isso dentro dos parâmetros estabelecidos pela comunidade. Os bibliotecários não deixaram que as pessoas sob investigação só fossem ter conhecimento da Carta de Segurança Nacional de maneira informal. Eles não ignoraram a lei, muito pelo contrário, foram atrás dos tribunais para garantir a privacidade, a liberdade civil e a liberdade de expressão.

Embora eu não acredite muito que os bibliotecários se arrisquem para garantir plenamente todos esses direitos constitucionais, é importante que as bibliotecas ofereçam este tipo de apoio, inclusive fora de suas paredes. Por exemplo, muitas bibliotecas buscam manter privado o que você faz: apagando históricos de navegação na Internet, limpeza de registros de circulação. Elas fazem isso de maneira exemplar, mas será que os bibliotecários te avisam que mesmo você utilizando uma navegação anônima na Internet para acessar o Facebook, ainda assim está sendo monitorado (não pela biblioteca, mas pelo Facebook)?

Atualmente, os problemas com privacidade não vêm de um único Grande Irmão (o governo), mas de uma série de grandes irmãos. Facebook, Google, Twitter, bancos e companhias de seguro tem gasto milhões e milhões de dólares para vigiar o que você está lendo, clicando, onde está e inclusive quais riscos você pode representar.

Alexis Madrigal escreveu sobre isso no National Journal:

“Não há nada necessariamente de sinistro nestes bancos de dados subterrâneos: antes de tudo, eles são o ecossistema da publicidade que suporta todo o conteúdo online. Os dados armazenados é que fazem com que os anunciantes ajustem suas publicidades para que funcionem de maneira mais efetiva. E não falo somente do The New York Time, vi isso no Huffington Post, no The Altantic e no Business Insider. Cada movimento que você faça na Internet pode ter valor para alguém, as empresas querem ter certeza de que cada passo será monetizado.”

Se as bibliotecas se dedicam a prover o acesso à informação, capacitando as pessoas, é também necessário que elas notifiquem sobre estas ameaças à privacidade? As bibliotecas não poderiam representar a voz da comunidade pública em discussões sobre estas questões? Acreditar mais nas bibliotecas significa também que as pessoas tenham noção sobre estas ameaças com suporte das bibliotecas.

No Capítulo 6 veremos a importância das bibliotecas em ser pró-ativa nos problemas de segurança e liberdade intelectual. Agora, veremos sobre a última forma de facilitação – que tem tudo a ver com você.

Trabalhando na motivação para aprender

Para falar sobre motivação, preciso retornar à Biblioteca Livre de Fayetteville. Enquanto estávamos ocupados com a impressão de um robô e um anel na impressora 3D, a bibliotecária Lauren, mencionou que seria lançada uma casa aberta para o Fab Lab que incluiria uma impressora 3D, que faria bijuterias e procurava alguém que fizesse outros materiais com fita adesiva. Riley, meu filho com 11 anos, disse, “Eu sei fazer coisas com fita adesiva” e logo em seguida mostrou algumas fotos de suas criações no telefone.

“Excelente”, disse Lauren. “Não quer ensinar a fazer?” e logo Riley disse sim.

Isso teve um grande impacto também na vida de Andrew, pois na semana seguinte ele já veio empolgado dizendo que tinha uma grande ideia para a feira de ciências daquele ano: “Eu estou criando o desenho da biblioteca do futuro!”, declarou. Em apenas 10 minutos ele já tinha o rascunho no papel do que queria fazer.

Vinte minutos depois, Andrew e Riley foram construir a biblioteca no Minecraft, um jogo famoso semelhante a Second Life e SimCity. Eles poderiam ter feito isso com Lego também, mas eles queriam convidar seus amigos para visitar online a biblioteca.

Figura 6 - Biblioteca do futuro no Minecraft desenhada por Andrew e Riley Lankes
Figura 6 – Biblioteca do futuro no Minecraft desenhada por Andrew e Riley Lankes

No sábado seguinte, voltamos à Biblioteca de Fayetteville com a biblioteca do Minecraft num CD e a imprimimos.

Figura 7 - Andrew segura seu modelo de biblioteca do futuro elaborado no Minecraft e impresso com uma impressora 3D.
Figura 7 – Andrew segura seu modelo de biblioteca do futuro elaborado no Minecraft e impresso com uma impressora 3D.

Provavelmente agora você pensará que falarei sobre o poder dos Millennials ou dos Fab Labs, mas para mim não é isso que importa nessa história. O que se destaca para mim é a motivação de meus filhos que foi incentivada pela bibliotecária. Claro que a impressão 3D é uma coisa legal, mas não foi isso que chamou a atenção de Riley, mas sim o modo como Lauren tratou da sua capacidade em trabalhar com fita adesiva e a “recompensa” em ter seu trabalho exposto na biblioteca duas semanas mais tarde, quando voltou à biblioteca.

Motivar para o aprendizado é a forma mais importante para a facilitação. Sem ela, ter programas de aprendizado, serviços e outros atividades que a biblioteca promova serão em vão.

Há várias maneiras que as bibliotecas podem inspirar os membros de sua comunidade e construir sua motivação para aprender, criar conhecimento e ultimamente, melhorar a sociedade. A mais significativa delas é ceder algum controle e autoridade sobre a biblioteca para a própria comunidade. Isto vai além de uma simples comissão ou conselho. É também mais do que falar que os indivíduos pagam seus impostos e por isso podem exigir melhores produtos e serviços, significa permitir ser coproprietários.

O poder da copropriedade é praticamente ainda muito limitado a bibliotecas. Enquanto meus filhos estavam trabalhando em seus projetos, o corpo docente da universidade em que estou foi à procura de novos modelos de ensino. Uma que é frequentemente discutida é a “inversão da sala de aula”, onde os estudantes fazem seus trabalhos domésticos na escola e os da escola em casa. Entretanto, no meio da discussão me veio à mente o trabalho com a impressora 3D.

Enquanto estamos aqui sentados e debatendo quando nós entregaremos nossas leituras ou quanto tempo isso levará para acontecer, em quais meios será transmitida, mas na verdade isso já está acontecendo. Os professores já estão perdendo o controle de acompanhar isso, não basta mais entregar algo para que os alunos leiam, é necessário que todos parem, sentem e pensem juntos sobre o que leem, pois a informação é muito dinâmica.

Este último ponto é crucial e não significa simplesmente dar o controle da aula para os alunos, deixá-los que aprendam sozinhos. Há um bom valor nos professores e pesquisadores que os alunos precisam perceber, eles têm o dom de guiar e isso precisa ser valorizado e é por isso que há anos e anos este modelo universitário vem funcionando tão bem.

O mesmo acontece com nossas bibliotecas. O conceito de Maker Space que a Biblioteca de Fayetteville vem desenvolvendo não se preocupa somente em estudar alguma coisa, mas sim a criar, e para que isso ocorra, é necessário que pais, filhos, bibliotecários, peritos técnicos e professores estejam em sintonia. A criança que for trabalhar neste espaço precisa ser vista como uma criadora e não consumidora de informação, caso contrário, o Maker Space não irá funcionar. Ela não precisa criar algo na mesma qualidade de um brinquedo da Lego (e nem conseguirá) ou ser desafiado para isto. É importante que ela compreenda o processo, como é descobrir e criar algo novo.

Sei que teríamos longas discussões a respeito do processo de ensino e de aprendizagem e que talvez aqui eu esteja minimizando-as, indo muito direto ao ponto, de maneira muito simples. Mas é exatamente isso que precisamos fazer! Há uma quantidade enorme de ego que ronda estes assuntos e acabam por não discutir e conversar, há muito mais discussões teóricas que práticas a respeito destes assuntos. Temos que ir pelo caminho inverso, motivar e envolver os membros de nossas comunidades com o potencial daquilo que podemos realizar. Precisamos acreditar mais!

Professor, Bibliotecário, Espião

Se tivéssemos que resumir este capítulo, esta seria a frase: acredite no potencial de sua biblioteca como facilitadora de conhecimento. Aí você poderia se perguntar: mas por que uma biblioteca e não uma escola? Na verdade, se você resgatar os quatro meios de facilitação de construção de conhecimento que aqui foram apresentados, eles também poderiam ser facilmente aplicados a pessoas, além das bibliotecas: professores, jornalistas, editores. Certamente esta preocupação de melhorar a sociedade através da criação de conhecimento é aplicável para todas estas profissões.

Facilitar não é um verbo só para bibliotecários e bibliotecas. Combinar missões, recursos, habilidades é o que deveria definir uma biblioteca, e não o seu prédio cheio de livros. Acredito fortemente que com o tempo os facilitadores de conhecimento que citei acima vão trabalhar de maneira mais conjunta e com um outro viés, muito mais social. Falarei sobre eles novamente no Capítulo 7, mas por enquanto, precisaremos nos dedicar um pouco mais para compreender o que exatamente quero dizer com “melhorar a sociedade”.

Help me learn through conversation...